A Petrobras anunciou a sua primeira redução no preço dos combustíveis neste ano. A decisão foi diretamente motivada pelo recuo do petróleo no mercado internacional. A partir de hoje, o valor médio cobrado nas refinarias cai 5,2%, passando a R$ 2,57 por litro — um barateamento de R$ 0,14. Esse é o terceiro corte desde meados do ano passado. Os ajustes anteriores aconteceram em junho e outubro, quando o preço já havia recuado de R$ 2,85 para R$ 2,71.
Apesar da novidade, a mudança não deve ser tão expressiva para o consumidor final. Analistas projetam um alívio modesto, entre 1% e 2% nas bombas. Na visão da Abicom, associação que reúne os importadores do setor, a redução poderia ter sido bem maior. A entidade calcula que os preços cobrados pela estatal no mercado interno ainda estão cerca de 5% acima da cotação global. Desde o final de novembro, essa defasagem chegou a bater os 11%. Segundo Sérgio Araújo, presidente da Abicom, a queda internacional não chegará integralmente ao brasileiro, já que o litro vendido pela Petrobras continua R$ 0,12 mais caro do que no exterior.
Pressão de mercado e expectativas frustradas
O mercado enxerga um motivo claro para o movimento da estatal: conter o avanço dos importadores. Com os preços internacionais em baixa e o real mais valorizado frente ao dólar recentemente, o produto importado ganhou muita competitividade. Atualmente, essas empresas já respondem por até 20% das vendas de gasolina no Brasil.
Um relatório do Itaú BBA considerou o corte “abaixo das expectativas”, embora o ajuste já estivesse no radar dos investidores. O banco apontava que, antes dessa revisão, a gasolina nacional estava cerca de 10% acima do preço de paridade de importação (PPI). A previsão era de um corte mais agressivo. Após a mudança, a diferença ainda se mantém na casa dos 5%. Em meio a essas manobras de preço, a companhia também tenta sinalizar para o futuro e anunciou um investimento expressivo de R$ 6 bilhões para a construção de sua primeira biorrefinaria.
O choque no setor aéreo e o parcelamento inédito
Se a gasolina traz algum fôlego, o cenário é diametralmente oposto para o querosene de aviação (QAV). Maior produtora e responsável pela maior parte da atividade de refino no país, a Petrobras confirmou um salto pesado de 54,8% no combustível aéreo para abril. A explosão nos preços reflete a tensão geopolítica e o encarecimento do petróleo atrelado à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. O reajuste do QAV acontece sempre no início de cada mês, levando em conta oscilações de câmbio e da commodity global.
Para evitar um estrago imediato no caixa das companhias aéreas, a estatal adotou uma saída alternativa. Ela permitirá que as distribuidoras paguem o reajuste de forma parcelada. A estratégia busca mitigar o impacto para os clientes e, ao mesmo tempo, preservar a neutralidade financeira da empresa. Na prática, as distribuidoras que abastecem as aéreas enfrentarão um aumento imediato menor, de apenas 18% agora em abril. O restante da fatura será dividido em seis parcelas a partir de julho. Essa flexibilização inédita também pode vir a ser aplicada nos meses de maio e junho.
O fator político e o diesel mais barato
Toda essa dinâmica de preços embute um peso político inegável. A estatal cortou a gasolina, mas o diesel continuou intocado. E o mais curioso é que a situação do combustível pesado é exatamente o oposto da gasolina. Há semanas, o diesel é vendido no Brasil a um preço menor do que o praticado lá fora. Levantamentos da Abicom indicam que, recentemente, a Petrobras comercializou o produto com uma defasagem negativa variando entre 2% e 9%.
A grande incerteza que paira sobre quem dirige diariamente é se a redução da gasolina vai de fato chegar aos postos. O barateamento na porta da refinaria não é garantia de desconto na ponta da linha. O valor final cobrado nas bombas depende exclusivamente dos repasses feitos pelas distribuidoras e pelas margens das redes de postos de combustíveis.