A Dinâmica Implacável da Carne: Do Pasto Seco nos EUA às Operações da Marfrig

A Dinâmica Implacável da Carne: Do Pasto Seco nos EUA às Operações da Marfrig

O mercado da carne bovina está atravessando um momento que beira o irracional, descolando com força da inflação geral e reescrevendo a dinâmica de quem produz e de quem consome. Nos Estados Unidos, a oferta de gado atingiu seu nível mais crítico em 75 anos. A matemática por trás disso é brutal: uma seca implacável prolongada varreu o país no ano passado, forçando pecuaristas do Meio-Oeste e do Texas a liquidarem seus rebanhos por pura incapacidade de bancar a ração para compensar um pasto que simplesmente não crescia. O resultado é uma restrição de oferta severa que empurrou os preços para as alturas, um cenário que os economistas preveem que vai se arrastar até o verão do ano que vem.

E quem sente essa pancada primeiro é a ponta da cadeia, como o setor de restaurantes, que já vem engolindo a seco esse aumento de custos há quase um ano e meio. Pega o caso do Smash Masters, uma hamburgueria que abriu as portas em Zebulon, na Carolina do Norte, em março de 2025. Naquela época, o preço no varejo da carne moída girava em torno de US$ 5,79 o quilo (ou melhor, a libra-peso). Desde então, o valor deu um salto assustador de 19%, batendo nos US$ 6,90, segundo o Bureau of Labor Statistics dos EUA. Robert Thompson, o dono do negócio, sente o golpe a cada hambúrguer que vai para a chapa. Numa hamburgueria, tirar o principal ingrediente do cardápio não é uma opção, então a operação vira uma guerra diária por sobrevivência. Só na última semana, o custo no atacado subiu mais 20 centavos por libra.

Thompson resume bem o drama de quem está na linha de frente: ou você corta na carne de outras despesas, ou a conta não fecha, já que o ganha-pão do lugar são os hambúrgueres e os Philly cheesesteaks. Ele tenta segurar o repasse para o consumidor o máximo que dá, torcendo para que a clientela entenda que o preço embute muito mais do que o ingrediente em si — tem a mão de obra, a energia elétrica, o gás e toda a estrutura operando.

O Outro Lado da Moeda e a “Tempestade Perfeita”

Enquanto o varejo sua a camisa para manter as margens, o jogo finalmente começou a virar para quem está no campo. A pecuarista Natalie Wester Farmer, que representa a quarta geração à frente da Wester Farms, no condado de Franklin, conta que a alta contínua nos supermercados demorou muito para chegar à porteira da fazenda. Hoje, a propriedade consegue cerca de US$ 2 a mais por libra de gado do que no ano passado.

Até pouco tempo atrás, o produtor estava apenas pagando o pato. O custo da ração disparou, o combustível ficou mais caro, o preço da terra subiu, mas a arroba do boi continuava estagnada. Com uma operação de 350 acres que também cultiva lavouras e sente o peso da seca extrema que atinge grande parte da Carolina do Norte, a Wester Farms conseguiu a proeza de manter suas mais de 450 matrizes bovinas. Outros não tiveram a mesma sorte. Hoje, eles vendem cortes diretamente ao consumidor — incluindo os cobiçados bifes Tomahawk — com a premissa de oferecer um preço justo comparado a redes como a Wegman’s, com o diferencial do gado nascido e criado ali mesmo.

Gbenga Ajilore, economista-chefe do Center for Budget and Policy Priorities, crava que o que estamos vendo é uma verdadeira tempestade perfeita. Não é só o clima. O último ano e meio foi marcado por tarifas pesadas sobre aço, alumínio e fertilizantes, espremendo tanto quem cria o gado quanto quem planta a ração. Com a falta de trégua no clima e nos custos, o mercado futuro da carne segue em disparada.

Curiosamente, o apetite do consumidor ainda não recuou. O repasse pesado nas gôndolas se depara com dados recentes do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) mostrando que a inflação anual passou dos 4% em maio, batendo recordes de três anos. Ainda assim, no embalo das comemorações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos em julho de 2026, as grelhas continuam cheias de carne bovina. A virada de chave, segundo Ajilore, pode acontecer lá para agosto ou setembro, quando o orçamento apertar de vez e o consumidor começar a migrar para proteínas mais baratas, como o frango.

O Tabuleiro Global e o Posicionamento da Marfrig

É exatamente na interseção desse cenário de escassez norte-americana e da demanda resiliente que as gigantes globais do setor testam sua robustez, e é impossível ignorar o peso da Marfrig Global Foods S.A. nessa equação. Sediada em São Paulo, a multinacional brasileira é nada menos que a segunda maior produtora de carne bovina do planeta e tem os Estados Unidos como um de seus principais motores operacionais.

A arquitetura do negócio impressiona pelo tamanho: são 24 unidades primárias de processamento, 12 de processamento de valor agregado e 10 centros de distribuição, espalhados estrategicamente com foco majoritário na América do Norte e na América do Sul. Ao realizar o abate e a desossa em mercados-chave como EUA, Brasil, Uruguai e Argentina, além de produzir industrializados como beef jerky, enlatados e molhos, a Marfrig consegue surfar na complexidade da cadeia global, exportando e abastecendo o mercado interno de cerca de 100 países.

No pregão mais recente, refletindo o peso de suas operações globais, os papéis da companhia no Novo Mercado da B3 (MRFG3) registraram volume robusto de R$ 90.112.504,00. A ação fechou cotada a R$ 15,96, anotando uma alta de 1,14% no dia, oscilando entre a mínima de R$ 15,64 e a máxima de R$ 16,10. Para o pequeno investidor, o ativo também gira no mercado fracionário sob o ticker MRFG3F.

A resiliência atual da empresa foi construída a base de aquisições agressivas e leitura de mercado. Desde o início das operações em 1986, focada em distribuir cortes para grandes restaurantes, a Marfrig expandiu brutalmente. A internacionalização tomou tração em 2005 via América do Sul, mas foi o movimento de 2018 que a colocou no epicentro do atual furacão americano: a compra da National Beef. Ao mesmo tempo em que se desfazia da Keystone Foods (comprada em 2010), a empresa cravou os pés nos EUA. No ano seguinte, em 2019, reforçou seu braço de hambúrgueres adquirindo as marcas VG e Iowa e, lendo a tendência de diversificação, engatilhou a produção de hambúrgueres 100% vegetais no Brasil junto com a gigante ADM.

Enquanto a seca castiga os pastos americanos e os pequenos empresários fazem malabarismos com as margens, conglomerados diversificados e com forte capilaridade internacional, como a Marfrig, absorvem o choque de maneira diferente, ditando o ritmo de um mercado onde a carne no prato custa cada vez mais caro.