Os investidores abrem a semana com a bolsa operando no vermelho, ainda tentando digerir a ressaca geopolítica da cúpula entre Trump e Xi Jinping. Com a inflação se mostrando bem mais teimosa do que o esperado, a pressão na curva de juros é real. Na última sexta-feira, os Treasuries de 10 anos passaram com folga da marca dos 4,5%, e a liquidação dos títulos continuou na segunda-feira, empurrando o yield de referência para a beira dos 4,6%. Os índices sentiram o golpe: o Dow Jones já aponta para uma abertura em baixa nesta segunda, após fechar a última semana no negativo, acompanhando o S&P 500 e o Nasdaq — pesado em tecnologia —, que amargaram perdas nos últimos cinco dias de pregão.
Depois de uma verdadeira maratona de balanços e dados econômicos densos nas últimas semanas, a agenda dos próximos dias até tenta dar um certo respiro, mas os holofotes já têm dono. É claro que o mercado vai acompanhar de perto os números de gigantes do varejo como Target e Walmart, na quarta e quinta-feira, além da Ryanair e da Booz Allen Hamilton nas pontas da semana. No front econômico, a prévia do sentimento do consumidor e as expectativas de inflação da Universidade de Michigan na sexta-feira são o prato principal, junto com as leituras de atividade de serviços dos Feds de Nova York e Kansas City. Mas, sejamos francos, Wall Street inteira está com o dedo no gatilho esperando a quarta-feira.
O dia é da Nvidia. O balanço da companhia deixou de ser apenas um relatório corporativo para virar o grande termômetro global do trade de Inteligência Artificial e das Big Techs. A gigante dos semicondutores acabou de furar a marca absurda de US$ 5,7 trilhões em valor de mercado, reafirmando sua posição intocável de empresa mais valiosa do planeta. E o timing é no mínimo curioso: logo após o CEO Jensen Huang colar no Presidente Trump em uma viagem à China, qualquer vírgula sobre novos acordos ou barreiras comerciais será dissecada pelos analistas. Apesar de toda essa tração, o clima não é de otimismo cego. Tim Arcuri, analista do UBS, cantou a pedra de que os investidores andam ressabiados nos últimos meses, e as expectativas do mercado estão tão esticadas que só um resultado absolutamente estelar na quarta-feira vai ser suficiente para segurar o papel.
É exatamente aí que a tese estrutural de longo prazo entra em choque com a ansiedade imediata. Hoje, a ação da Nvidia (NVDA) roda na casa dos US$ 220, mas já tem gente grande montando posição e apostando que o papel vai bater os US$ 300 até o final de 2026. Exigir um salto de 36% em praticamente seis meses não é pouca coisa num mercado maduro, mas quando o assunto é o hardware que sustenta a atual corrida do ouro digital, a métrica muda. As GPUs da empresa nasceram para dar conta de gráficos pesados de videogame, escalaram para simulações de engenharia e mineração de criptomoedas, e hoje são o coração do treinamento e da inferência de modelos de IA. A demanda continua insaciável, e Wall Street projeta que a receita da Nvidia dê uma pancada de 79% de crescimento no primeiro trimestre e 85% no segundo, reacelerando o ritmo após a leve acomodada vista no ano passado.
A verdadeira onda gigante que vai ditar se a Nvidia chega ou não nesses US$ 300 atende pelos sistemas Blackwell e Rubin. O próprio Huang avisou aos investidores que a demanda cumulativa por essas novas arquiteturas vai bater a marca de US$ 1 trilhão até o final de 2027. É difícil cravar com precisão cirúrgica o que esse “cumulativo” significa sem abrir a caixa-preta dos anos anteriores, mas a matemática do que vem pela frente impressiona. No ano fiscal de 2026 (encerrado em janeiro e englobando quase todo o ano civil de 2025), a companhia entregou US$ 216 bilhões em receita. Para o ano fiscal de 2027, a projeção do mercado já pula para os US$ 371 bilhões. O ecossistema Blackwell começou a ser despachado em alto volume este ano, e o Rubin mal chegou às prateleiras no ano passado.
Para sustentar essas cifras colossais, a infraestrutura global precisa continuar comprando, e os principais clientes não mostram nenhum sinal de freio. Na sua última teleconferência de resultados, a Alphabet (Google) foi categórica ao avisar que os investimentos em capital (capex) vão sofrer um “aumento significativo” em 2027 na comparação com os níveis do ano anterior. Como a Nvidia é a fornecedora primária de poder computacional para eles, o recado está dado. O cenário macro pode até pesar a mão nos juros e no risco geopolítico, mas a máquina de gastar das Big Techs já está encomendada, deixando o mercado testar até onde esse novo superciclo tecnológico consegue ir antes de encontrar qualquer resistência real.