Nuvens escuras ofuscaram o brilho inicial da bolsa brasileira no pregão mais recente. O Ibovespa encerrou o dia com uma queda expressiva de 0,84%, recuando para a marca de 183.133,75 pontos, o que representou uma perda superior a 1.500 pontos. Esse movimento de baixa reflete um ajuste natural de realização de lucros, motivado pela quebra de sucessivos recordes nos últimos dias, mas também tem influência direta do exterior. O mau humor vindo de Wall Street pesou fortemente sobre os negócios locais, mudando os rumos de um dia que tinha tudo para ser histórico. Pela manhã, o índice principal operava com força total e chegou a renovar sua máxima, ultrapassando a barreira dos 186 mil pontos de forma inédita ao bater 186.449,75 pontos.
O mercado de câmbio acompanhou essa volatilidade. O real iniciou o dia ganhando bastante terreno e, embora tenha sofrido uma desvalorização pontual frente ao dólar horas depois, conseguiu se recuperar até o fim da sessão. A moeda norte-americana terminou cotada a R$ 5,194, um recuo de 0,22%. Na curva de juros, os DIs começaram os negócios com quedas amplas, perderam ritmo ao longo da tarde e chegaram a flertar com o campo positivo, mas terminaram com baixas generalizadas.
A Promessa do Copom e os Ecos em Brasília
Toda essa montanha-russa de emoções tem um gatilho muito claro nos bastidores econômicos do Brasil. Na noite anterior, após o fechamento do mercado, o Banco Central anunciou a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano. Até aí, tratava-se de um jogo jogado, amplamente aguardado pela maioria dos analistas. A grande surpresa, que injetou ânimo nos investidores nas primeiras horas do dia, veio no comunicado oficial da instituição. O texto acenou de forma bastante explícita para o início de um ciclo de cortes na taxa de juros já a partir de março.
Diante dessa sinalização, o mercado financeiro rapidamente ajustou suas apostas e passou a precificar uma redução mais agressiva, de 0,50 ponto percentual. Apesar do otimismo do mercado, a redação do documento do Copom manteve um tom cauteloso. Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, pontuou que a autoridade monetária destacou a necessidade de manter uma política restritiva pelo tempo adequado. Afinal, a inflação e as expectativas seguem descoladas da meta, e a economia desacelera apenas de maneira gradual em meio a um mercado de trabalho que ainda demonstra resiliência.
No cenário político, as reações foram imediatas. Fernando Haddad, que já tem sua saída do governo confirmada para este mês de fevereiro, defendeu que a esperada queda na taxa básica ajudará a trazer a dívida pública, a qual ele se refere como “selicada”, para um patamar muito mais administrável. Na mesma linha, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, trouxe uma perspectiva positiva ao afirmar que o governo projeta entregar em 2026 um resultado fiscal bem mais próximo da meta estipulada do que os números observados em 2025.
O custo da Selic nesse patamar elevado, contudo, já deixou cicatrizes profundas. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, não poupou críticas à política monetária e afirmou que os juros a 15% prejudicaram muito mais a geração de empregos em 2025 do que qualquer política tarifária imposta pelo governo Trump nos EUA. Os dados do Novo Caged divulgados recentemente confirmam a preocupação: o mercado brasileiro fechou dezembro de 2025 com a destruição de impressionantes 618.164 postos de trabalho formais. Todo esse pano de fundo doméstico justificou a euforia matinal da bolsa, uma alegria que durou exatamente o tempo necessário para Nova York abrir as portas.
A Dinâmica Oculta dos Estados Unidos
A influência de Wall Street que derrubou o Ibovespa esconde um cenário bastante peculiar no mercado americano. Ao olhar de forma superficial para o índice S&P 500, que encerrou o dia 17 de fevereiro de 2026 praticamente estável no acumulado do ano, a impressão geral é de que as ações não estão indo a lugar nenhum. Essa leitura passa longe da realidade. As grandes gigantes de tecnologia e hipercrescimento (mega caps) estão passando por fortes correções, enquanto uma infinidade de outras empresas está disparando na bolsa.
O avanço acontece principalmente em setores que não possuem um peso gigantesco no índice principal, como indústrias, energia, materiais básicos e bens de consumo. Para se ter uma ideia prática desse fenômeno, se o S&P 500 fosse calculado dando o mesmo peso para todas as suas empresas componentes, em vez de ser dominado pelo valor de mercado das gigantes de tecnologia, o índice estaria acumulando uma alta de 5,5% neste ano.
Os ETFs de Valor que Estão Batendo o Mercado
É justamente nesse ambiente de rotação de ativos que alguns fundos de índice (ETFs) voltados para empresas de valor estão esmagando a rentabilidade do S&P 500 em 2026 e se consolidam como excelentes oportunidades de compra. O maior expoente desse grupo é o Vanguard Value ETF (VTV). Com um patrimônio colossal de US$ 227 bilhões, ele cobra uma taxa de administração irrisória de 0,03%, o que equivale a apenas 3 dólares para cada 10 mil investidos.
Ao contrário do Nasdaq ou do próprio S&P 500, o VTV passa longe da Nvidia ou da Apple em suas principais posições. O fundo concentra 53,1% de seus recursos nos setores financeiro, industrial e de saúde. Empresas pesadas como JPMorgan Chase, Berkshire Hathaway, ExxonMobil, Johnson & Johnson e o recém-chegado ao clube do trilhão, Walmart, formam a base desse portfólio. Essas companhias podem não ter o glamour explosivo do setor de inteligência artificial, mas possuem um histórico implacável de recompensar a paciência dos acionistas com retornos consistentes e dividendos sólidos, entregando um yield de 2% contra minguados 1,2% do S&P 500.
Para investidores que preferem apostas menos pulverizadas, o Vanguard Mega Cap Value ETF (MGV) surge como uma alternativa robusta. Ele cobra uma taxa levemente maior (0,05%) e possui uma carteira mais enxuta, de 123 ativos contra os mais de 300 do VTV. A sua principal característica é dar um peso muito maior às líderes do mercado. As suas cinco maiores posições, que são exatamente as mesmas do VTV, representam 16,1% do fundo, o que o torna ideal para quem deseja concentrar os investimentos nas gigantes do setor de valor. Historicamente, essa estratégia rendeu um retorno ligeiramente superior ao seu “irmão maior” nos últimos cinco anos, embora a escolha entre eles dependa mais da preferência pessoal do investidor.
O grande destaque em termos de performance, porém, é o Vanguard High Dividend Yield ETF (VYM), que já acumula um salto de 8,1% no ano. Focado em empresas com histórico de crescimento na distribuição de lucros, o fundo possui 562 participações e uma taxa de 0,04%. A sua atual composição guarda algumas ironias do mercado: a maior posição do portfólio é a Broadcom, uma empresa que já foi o arquétipo de ação de valor antes da sua divisão de chips para IA decolar. Hoje, com as ações nas alturas, o seu yield caiu para apenas 0,8%, bem distante da ideia de “alto rendimento” sugerida pelo nome do ETF, mesmo mantendo um impressionante histórico de 15 anos aumentando proventos.
A situação do Walmart é parecida, pagando cerca de 0,7% de dividend yield mesmo após mais de meio século de aumentos consecutivos, puramente porque o preço da ação disparou. A estratégia do fundo se prova vencedora justamente por não vender empresas excelentes só porque elas subiram e os yields caíram, preferindo manter as verdadeiras líderes da indústria na carteira. Com uma forte exposição a setores consistentes e um yield médio de 2,3%, esse tipo de fundo explica o porquê de o investidor americano estar lucrando em silêncio, enquanto índices gigantes tentam encontrar um novo ponto de equilíbrio.